Este é um espaço para crônicas e histórias pitorescas que envolvam os descendentes da família Schüür. Escreva e conte a sua.

Olá pessoal.

Como vocês sabem, em 1996 o filme O Quatrilho foi um dos indicados para concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. O filme foi baseado no romance de José Clemente Pozenato, amigo pessoal e colega na Universidade de Caxias do Sul.. Naquela oportunidade, acompanhamos a equipe a Hollywood, junto com os atores, produtores e diretor do filme. Pozenato e eu fomos gentilmente convidados pela querida prima Lore e pelo saudoso Willi para ficarmos como seus hóspedes em Los Angeles. Na condição de escritor e cronista do jornal Pioneiro da RBS de Caxias do Sul, Pozenato escreveu algumas crônicas que relatam ou resgatam aquela experiência. Transcrevo a crônica escrita na casa da Lore, no dia seguinte ao Oscar, e publicada no jornal Pioneiro em 30 de março de 1996.

Germano Schüür

 


 

UM DIA DEPOIS ...

José Clemente Pozenato

Para curar a ressaca do Oscar, nada melhor do que um passeio por Los Angeles e redondeza. Os dias têm sido sempre ensolarados e a temporada mais ou menos como a da serra gaúcha nesta época do ano. Um arzinho frio durante o dia, e à noite, a necessidade de um casaco. Saímos no carro da Lore - uma gaúcha com quase trinta anos em Los Angeles e que, com seu sempre afável Willi Schwarz, me tem tratado com o carinho de novo membro da família e as regalias de hóspede (por sinal, estou escrevendo no computador do Andreas, filho deles, que navega daqui pelas ondas da Internet) - na direção das ilhas do litoral.

A primeira impressão que se tem com Los Angeles é de que é uma cidade conhecida. Aos poucos vai-se descobrindo por que. Não apenas as free-ways que se desdobram em todas as direções, mas também inúmeros lugares e prédios são freqüentadores assíduos das telas de cinema. Quase tudo aqui já foi set de filmagem: hotéis, escolas, bairros, trapiches, ruas, estradas, etc. O interessante é que esta cidade realmente vive o cinema. As pessoas aqui vêem os últimos lançamentos, comemoram quando são convidadas como público teste de um novo filme, acompanham passo a passo a festa do Oscar e reverenciam todos os que têm alguma coisa a ver com cinema, sem falar que as casas de projeção rivalizam para oferecer imagem e som de primeira qualidade. Sentindo todo esse clima, a gente percebe o quanto é difícil fazer cinema no Brasil e o quanto O Quatrilho foi uma verdadeira façanha, uma espécie de flor nascida no deserto, que aliás está bem perto daqui.

Mas, voltando ao passeio, fiquei conhecendo a ilha de Balboa e outras ilhas vizinhas que já valeriam ser visitadas apenas pelo cenário. Comemos uma sopa de ostras no Crab Cooker que duvido existir em alguma outra parte. Contam como um dos orgulhos do restaurante que o presidente Nixon tentou uma vez comer ali num fim de semana e foi mandado para o fim da fila como todo o mundo, uma fila que dobrava o quarteirão. A garçonete que nos contou a história me olhou com ar divertido e completou: "Mesmo que o senhor ganhe o Oscar no ano que vem, vai ter que entrar na fila". Aliás, bastava a Lore contar que estávamos aqui por causa da participação no Oscar para vermos sorrisos se abrirem e a proverbial formalidade americana se desmanchar em cordialidade. Uma senhora, que calculo tenha seus oitenta anos, que nos atendeu na sua lojinha de T-shirts, disse com ar brincalhão: "sou uma artista frustrada". Mas no olhar que me dirigiu senti assim como uma espécie de última esperança de que o sonho poderia ainda ser possível.

É assim que Los Angeles me parece. Uma cidade em que tudo conspira a favor do cinema. Eles têm até a casa de John Wayne que, por sinal, não é um rancho no estilo dos vaqueiros do Oeste. É uma casa numa ilha de onde ele poderia enxergar iates e barcos de vela de qualquer janela que olhasse. Seria ele um velho marinheiro, em vez de um caubói ?

Pozenato, Germano e Lore - O Quatrilho, Oscar 96

 


HISTÓRIAS PITORESCAS DA VIDA DE ANNY SCHÜÜR WEGERMANN

Relatado por Anelise, filha de Anny

Em 1916, quando tinha aproximadamente  4 anos de idade, foi com sua mãe visitar o pai que estava hospitalizado em Aschaffenburg durante a Primeira Guerra Mundial. Esta foi a primeira lembrança marcante da sua vida.

 Ani foi uma criança alegre e teve uma infância feliz na Alemanha, mesmo com todas as dificuldades que a família passou. Este espírito alegre e aventureiro permaneceu com ela durante toda sua vida.  

Da viagem de navio vindo da Alemanha para o Brasil, em janeiro de 1924, contava que ficou muito doente, apesar disso adorou a viagem. Teve a oportunidade de brincar com as outras crianças, freqüentar as horas bíblicas e cantar. Gostou imensamente do “apartamento” no navio. Desembarcaram no porto de Rio Grande e o dia estava muito quente. Comeu pela primeira vez melancia e feijão preto, gostou muito, mas adoeceu do estômago por muitos dias. Esta foi a “introdução” da Ani no Brasil. Em Linha República, hoje Guarani das Missões, com o calor de verão desconhecido, foram logo conhecendo os mosquitos, os borrachudos, os gafanhotos e os famosos bichos de pé!

No dia 25 de Julho de 1924, no ano que a Família Schüür imigrou para o Brasil, foi celebrado os “100 anos da Imigração Alemã ao Brasil". O pai Heinrich, que foi um também um poeta, compôs poesias alusivas a data, para suas filhas Ani e Clara recitarem nas festividades comemorativas.

Aos domingos pela manhã a família ia, de carroça, ao culto na Igreja Batista, e após Escola Dominical. À tarde, Ani, Volkmar, Heinrich e Engeline (Lini) freqüentavam a Juventude. A Clara, não podia acompanhá-los, pois só podiam participar com 14 anos de idade. Clara então voltava sempre triste com os pais para casa ou visitavam outras famílias.

Ani também gostava de compor poesias. Tinha uma grande habilidade de decorar e também recitar. Decorava semanalmente versículos bíblicos para a Escola Dominical. Sabia de cor inúmeros versos, hinos, canções e poesias até na sua velhice.

Cantava no coro e foi atriz em varias apresentações teatrais. Às vezes a encontravam no galpão recitando poesias, dedicando canções e  cantando para seu auditório especial - as vacas - que provavelmente também adoravam a atenção que recebiam dela. Que imaginação!

Ani, uma jovem linda, comunicativa e alegre, floresceu na cidade. Adaptou-se muito bem na Juventude da Igreja Batista. Foi ativa no Clube Alemão de Santo Angelo, hoje chamado de Clube Caixeral. Cantou no Coral Misto, participou nas apresentações teatrais e freqüentou as atividades do Clube.

Ani gostava de teatro. Aqui como atriz, cuja peça tinha cenário criado pelo opa Heinrich

Toda a família gostava de cantar e quando juntos cantavam hinos e canções alemãs. A canção, “Woh die Nordsee Wellen rauschen am dem Strand” era cantada, em Platdeutsch, e às vezes com muitas lágrimas. Deviam  ser de saudades e pelas belas recordações da pátria distante.

Quando estava na escola de costura em Santo Angelo, ainda solteira, um dia, Ani pensando que já sabia muito bem o português fez a tradução literal de "Fingerhut", pedindo por um "chapéu de dedo" para a professora em vez de um "dedal".

Aconteceram alguns problemas  com os imigrantes alemães no Brasil, devido a II Guerra Mundial, ao  registrarem o nome dos filhos, como os que relatamos a seguir:

Anelise ( Ana Elisa Gertrudes)  nasceu em 1941, na casa dos avós, em Santo Angelo, na Rua Antunes Ribas, onde eles, os avós, viveram até o fim de suas vidas. Hoje foi construído  um enorme edifício no lugar da  casa. Anneliese Gertrud  seria o seu nome mas quando Emil foi fazer o registro de nascimento no cartório em Santo Ângelo não o aceitaram por ser alemão. Sendo  registrada como Ana Elisa Gertrudes tornando o nome português, mas nunca foi chamada por este nome, mas sempre como Anelise.

Quando Lore Foskea, sua segunda filha nasceu em Cruz Alta , em 1946,  também não foi aceito no cartório o nome que queriam lhe dar - Annelore Foske. Ficando seu nome Lore Foskea .

 Já quando Henrique Emilio (Heini), nasceu, em 1948,  recebeu os primeiros nomes em português, como uma homenagem aos dois avós.

Ani tinha muitos dons e uma grande imaginação. Um dele foi o seguinte: por muitos anos refazia as bonecas das filhas para o Natal. "Marta", a boneca de Anelise desaparecia e no Natal ela ganhava uma "nova" boneca, e cada ano com um novo tipo de cabelo, uma vez louro,  preto ou castanho, mas sempre comprido, e sempre de vestidinho novo.  Ani fazia uma peruquinha, do tamanho da cabeça da boneca, costurando em camadas de cabelos naturais, depois colava a peruquinha e fazia um corte de cabelo final.  Anelise, num Natal, descobriu que a “nova” boneca era sempre a mesma através de uma pequena marca no pé. Este foi um segredinho de Ani e Anelise por longo tempo, pois isto acontecia também com as bonecas das irmãs.

Ani fazia os dias de festas muito especiais para seus filhos. Natal, Páscoa, aniversários eram sempre ocasiões para celebrações típicas, incorporando as tradições que lhe eram caras, e que nós até hoje preservamos.

As quatro semanas de Advento eram especiais, não só para seus filhos mas também para as crianças vizinhas. Acendia-se as velas do "Adventskranz", hinos de Natal eram cantados e depois saboreava-se os gostosos docinhos e chocolates  que  Ani havia  feito.Falava-se do significado  do Natal. Ani fazia questão de todos os dias, naquele calor de Dezembro, cantar a canção "Leise rieselt der Schnee" e muitas vezes víamos lágrimas nos seus olhos. Nós não conhecíamos neve naquela época, mas imaginávamos de como deveria ser lindo brincar na neve e vê-la cair lentamente deixando tudo branco... Aprendemos e gostamos desde crianças da "Ostfriesische Gemütlichkeit", a Comodidade Frisia, que a mãe Ani adorava.Nos ensinou, com muita pompa e prazer, como fazer um chá na "Ostfriesische Art" - à maneira frísia, o kopketee com açúcar cristalizado e nata.

Na sua cozinha, Ani sempre tinha os jarros especiais cheios com os seus famosos "chocolate chip cookies" (docinhos com pedacinhos de chocolate) para todos saborearem, até hoje ninguém consegue fazê-los tão gostosos como ela os fazia.

Ani aprendeu a fazer colchas em Reedley. Fez colchas para todos os filhos e netos, conjuntos de mesa de crochê e bordou jogo de toalhas de cozinha, que muitas vezes também eram dados como presentes de casamento ou aniversário. Todos apreciaram estas lindas lembranças da Omi. Quando Ani faleceu, ainda estavam guardados muitos conjuntos de mesa de crochê e toalhas que Ani tinha feito para os netos. Uma grande obra de amor

Em Reedley ela começou uma tradição, reunia mensalmente para um almoço, às vezes 8 ou 10 amigas. Faziam colchas de restos de tecidos, conversavam muito, almoçavam e depois tomavam café. Ani se deliciava com estas atividades. Pertencia também a um grupo de amigas da Igreja Menonita que fazia colchas a mão, e depois  leilões  para arrecadar dinheiro para os missionários. Ani adorava ajudar, estar com as amigas e ser útil, aprendeu bem este hobby e ao mesmo tempo aprimorava  o seu  inglês.

 Ani jogava regularmente Triominos (jogo de 56 ladrilhos triangulares, como dominós, mas com 3 cantos) e Rote Elf (jogo de cartas)  com as amigas e amigos, ela ensinou este joguinho a muitos. Como também presenteou amigos e parentes com estes jogos.  

Nós, seus filhos, temos engraçadas e saudosas recordações dela, pois às vezes confundia as três línguas, o que ficava muito divertido. Quando voltava das visitas ao Brasil, misturava ainda mais o português com o inglês e vice-versa, achando que estava falando alemão. Não se zangava  quando ríamos dela,  e ria conosco. Ela tinha um espírito alegre e era extrovertida, gostava de conversar com todos. Falava português com os mexicanos no trabalho. Às vezes falava alemão e estava certa que estava falando inglês, ou falando português, misturado com alemão, achando que era inglês. Tanto que foi carinhosamente apelidada pela sua sobrinha Marianne, no Brasil, por “Tante Maybe”, pois usava esta palavra inglesa nas três línguas que falava.

Como Ani aprendeu a dirigir em Reedley, com 55 anos, um dos carros que compraram era um Volkswagen.  Ani adorava aquele carro. Em Reedley já era conhecida com seu fuquinha vermelho, e às vezes causava alguns “probleminhas” no trânsito...Graças a Deus, sem gravidade...

Até de moto topava a parada...

Ani, a motoqueira...

Foi muito divertido conviver com a nossa mãe Ani.

 


 

SUSPEITA DE INFARTO OBRIGOU VARIG A POUSO DE EMERGÊNCIA

Jornal Zero Hora, 23 de abril de 2006 (Lúcia Ritzel)

O professor universitário Germano Schüür, de Caxias do Sul, viveu momentos de pânico em vôo internacional e até hoje é grato à calma e à gentileza da tripulação da Varig

 

Quando embarcou, no Rio de Janeiro, rumo a Cancún, no final de julho de 1998, o professor universitário e fotógrafo Germano Schüür, morador de Caxias do Sul, acreditava estar começando férias tranqüilas.

A viagem ao paraíso caribenho tinha o objetivo de compensar um período de intenso estresse. Além disso, ficaria para trás o inverno gaúcho. Mas uma indisposição durante o vôo e o diagnóstico equivocado de uma médica levaram Schüür a protagonizar um movimentado episódio, que ele guarda na lembrança como exemplo do bom atendimento da Varig.

Durante a madrugada, o avião quase deixando o espaço aéreo brasileiro e a tensão acumulada nas semanas anteriores capturaram Schüür: a pressão arterial caiu bruscamente, e ele começou a passar mal. Sem conseguir entender direito o que estava acontecendo, ouviu apenas a aeromoça perguntar pelo microfone de bordo se havia algum médico na aeronave. Alguns instantes e uma cardiologista carioca dava o diagnóstico. "Este senhor está tendo um infarto", disse a médica.

Por causa dessa sentença, o comandante decidiu fazer um pouso de emergência em Manaus, apesar dos protestos do fotógrafo:

- Eu sabia que não havia nada de errado com o meu coração. Eu só estava tendo uma indisposição por causa do estresse - conta Schüür.

Mas nada demoveu o comandante e a tripulação, que passou a cercá-lo de todos os cuidados. O aeroporto de Manaus teve de ser ativado, de madrugada, para que o avião pousasse. O gaúcho foi levado ao hospital local, fez exames (que afastaram a possibilidade de doença cardíaca) e dormiu em um bom hotel da cidade. Até tirou foto com o médico cardiologista Sócrates, que o atendeu na cidade.

No dia seguinte, novos exames e, quando obteve liberação, embarcou para São Paulo para retomar a viagem. Anos mais tarde, graças a um trabalho acadêmico realizado por um aluno da Universidade de Caxias do Sul (UCS), pôde calcular quanto custou o desvio de rota e as novas passagens para ele e sua mulher: US$ 15 mil, hoje o equivalente a R$ 32 mil. Ao ler sobre as recentes dificuldades da Varig, Schüür decidiu divulgar o episódio:

- Sempre achei que devia algo à Varig. Essa é a minha maneira de agradecer à empresa, que considero muito humana - disse a Zero Hora, do Rio de Janeiro, onde está passando férias.

 

 O médico Sócrates e Schüür (D) diante do Teatro Amazonas  
Foto: Fátima Martinato

 

Adendo complementar feito por Germano Schüür (não presente na matéria da ZH): Além de providenciar o retorno à capital paulista, a VARIG forneceu novos bilhetes para nosso destino final, com conexão via Miami (USA), de onde por conta da VARIG e, graças a sua interferência, pela empresa empresa aérea MEXICANA, chegamos a Cancún. Tudo com direito à milhagem (Smiles). Em Cancún perguntamos aos companheiros de viagem do dia anterior  como foi a vinda a Cancún: "Péssima, deu um treco no coração de um coroa que estava no avião, que nestas alturas já deve estar enterrado a sete palmos em Manaus. Este desvio de rota nos atrasou quatro horas", se apressou em dizer um dos turistas brasileiros.

O coroa enterrado era eu...


 

HISTÓRIAS PITORESCAS DA FAMÍLIA SCHÜÜR

Anelise Wegermann Dick

Quando eu estava escrevendo sobre a vida da minha mãe Anny, muitas vezes lembrei de momentos que marcaram a minha vida, envolvendo os avós, tios e tias. Decidi de colocar algumas no papel para que outros possam ver e sentir como é linda família a qual nós todos pertencemos.

Tia Clara...

Tia Clara é uma pessoa muito querida, bonita e muito admirada. Sempre foi muito organizada e caprichosa. É muito habilidosa, faz lindos bordados, crochê e tricot.

Tenho belas recordações da minha convivência com tia Clara. Hildegard e eu, aos 10 anos fomos visitar a família Zirr. Tia Clara nos levou, Hildegard, Helga, sua filha, e eu para a ¨Casas Pernambucanas¨ para nós escolhermos um tecido colorido para um traju de banho ( maillot) que ela depois costurou, com fio de elástico. Nós as três desfilamos no Ijuizinho, em alto estilo e muito orgulhosas, com os nosso lindos "maillots" confeccionados pela querida tia Clara.

Numa visita em Santo Angelo, na chácara do tio Volkmar no Ijuizinho, fiquei tempo demais no sol e levei uma "torrada". À noite, tive muita febre e estava delirando, tia Clara chamou um médico. Lembro de acordar e ver a tia Clara ao meu lado me acariciando. Nunca me esquecerei do grande carinho e amor que ela sempre me dedicou.

Para a jantar geralmente a tia fazia deliciosas sopas de leite.

Recordo também dos passarinhos, canários, periquitos, papagaios.... que eles criavam em enormes gaiolas, bem como da gostosa gasosa que eu podia tomar a vontade...pois eles ainda tinham naquela época a fábrica de Refrigerantes.

Tio Volkmar...

O tio Volkmar era uma pessoa muito especial. Viajava seguido a Panambi e redondezas a negócios e sempre nos visitava. Para nós, crianças, era uma alegria e festa quando isto acontecia. Ele aparecia com seus lindos carros, e levava a criançada passear pela cidade de Panambi, e sempre, tinha um dinheirinho no bolso para um gostoso sorvete e um chocolate.

Quando eu tinha apenas 11 anos fiquei um verão aprendendo o trabalho de escritório da Casa das Tintas, do tio Volkmar, em Santo Angelo. O tio e a família saíram em férias, eu fiquei ajudando, ou melhor incomodando o Elion Zancan, marido da prima Martha, que trabalhava no escritório. Imaginem, a canseira que eu devo ter dado no coitado...

Antes de viajar, o tio Volkmar me apresentou ao proprietário de um bar/restaurante e abriu uma conta-corrente no meu nome para eu poder comprar o "que eu quisesse". No retorno das férias ficou zangado comigo, porque eu comprei muito pouco na sua ausência. Ele era muito generoso, cavalheiro, gentil e querido. Tenho belas recordações do alegre e querido tio Volkmar...

Tio Heini....

O tio Heini foi um tio muito querido e admirado. Sempre cavalheiro e gentil. Quando o visitávamos sempre mostrava grande alegria e amor em nos receber.

Lembro do seu amor e orgulho pela família, por sua empresa, e pelo seu grande amor à Deus. Todas as manhãs, antes do café, lia a Bíblia, uma devoção e fazia também uma oração. Sempre tinha palavras de apoio, encorajamento e bons conselhos, tendo sempre consigo o apreciado chimarrão.

Tio Nicklaas...

O tio Nick foi com quem mais convivi de todos os meus tios. Tio Nicklaas, foi um verdadeiro pai para mim. Tenho grande amor, carinho, respeito e agradecimento para ele.

Quando em 1948 mudamos de Cruz Alta para Panambi, o tio Nicklaas deu-me pessoalmente uns presentes na nossa despedida. Um deles foi um estojo de lápis, pois eu faria o 1º ano na escola em Panambi. O meu estojosinho era o mais lindo e mais admirado por todos os alunos. Até hoje o guardo com muito carinho.

Outro presente que recebi dele na mesma ocasião foi um lindo e colorido ¨yo-yo¨. Quando sentia saudades dos Cruzaltenses, lá ia eu para um canto, brincar com o meu yo-yo... Fiquei muito "craque" neste brinquedo...

Fui muitas vezes a Cruz Alta visitar o tio Nicklaas e famiíia, o que eu adorava fazer. Tenho lindas e preciosas recordações... e aos 17 anos fui morar em Cruz Alta com eles. Trabalhava no escritório da Casa das Tintas e estudava a noite, na Escola Técnica de Comércio.

Muitas vezes, especialmente no inverno, ou quando chovia, aparecia o tio Nicklaas no portão da Escola com sua Kombi para me buscar as 11 horas da noite, e sempre oferecia carona para os meus colegas, que adoravam a idéia.

Tio Nicklaas e eu fomos grandes amigos, conversávamos bastante, tivemos muitos bate-papos inesquecíveis, troca de idéias e ele sempre me apoiou, dando bons conselhos e sendo um verdadeiro amigo.

A rotina domingueira dele era de acordar toda família com música, tanto alemã como clássica, antes do café e da ida a Igreja. Nós dois gostávamos muito de música, e eu adorava de ir com ele e a tia Gertrud aos concertos dos artistas que vinham para Cruz Alta, no Clube Cultura Artística. Até duetos, nos dois cantamos na igreja...

Tia Ida...

Nunca tive o prazer de conhecer a tia Ida pessoalmente, mas pelas cartas e pelo que minha mãe contava sobre ela e sua família na Alemanha, sempre me senti perto dela e a amava muito. Cada vez que chegava uma carta da tia Ida era um total silêncio enquanto minha mãe a lia em voz alta para a nossa família. Foi assim que convivemos um pouco com essa querida e distante tia.

Tia Lini....

Tia Lini foi também uma tia muito querida. Nos presenteava com muitas lembrancinhas, como cruzes de crochê que até hoje ainda temos e usamos em nossas Bíblias.

Em 1950 quando eu estava em Santo Angelo ela traduziu do alemão gótico para o moderno a poesia que o pai dela fez, pelo seu 14º aniversário . Então ela escreveu e dedicou esta poesia como lembrança do Opa, na primeira página do meu ¨Álbum de Recordações¨ Que linda e preciosa recordação...

Tia Lini também traduziu as muitas poesias do Opa do alemão gótico para o alemão moderno, e com isto nos deixou uma grande obra de amor...

Tia Juli...

Lembro com muito amor e carinho das minhas visitas em Ijuí. Guardo muito amor, carinho e admiração pela tia Juli. Era uma pessoa correta e de grande fé em Deus.

Em 1950 passei umas semanas de férias com a Família Reuwsaat. Foi um tempo maravilhoso. Como a Tia Juli só tinha filhos homens e eu fui sempre carinhosamente tratada como filha.

Tia Juli gostava de tudo lindo, bem organizado, toalhas lindas bordadas e engomadas na mesa, cortinas de crochê, lindas e aconchegantes almofadas... a decoração da casa no estilo alemão... à mesa cada pessoa tinha a sua ¨Serviette¨ - guardanapo - com um anel especial e todos nós tínhamos que ajudar nos afazeres da casa.

A tia Juli fazia os melhores docinhos...HUhmm... o cheirinho da cozinha da tia Juli era muito especial... Quando a porta da dispensa era aberta, por ser o lugar onde ela guardava os potinhos de anis, cravos, canela, essência de amêndoas... surgiam os mais gostosos aromas. São inesquecíveis recordações.

HAhm e os gostosos pães!!!! - Roggenbrot - pão integral, que a tia Juli fazia. Ela me contou que foi o tio Claas quem fez as formas redondas para os famosos e gostosos pães.

O tio Claas e a Tia Juli criavam uma cabra, para terem sempre leite fresquinho. O tio Claas fez uma carreta de madeira onde podia-se ficar dentro, e a "pobre" da cabra na frente puxava a carreta. Menno e Dettmer me levavam a passear. Imaginem nós passeando de carreta com a cabra pelas ruas de Ijui....

Tio Claas e os filhos faziam enormes pandorgas (pipas) de papéis coloridos, e nos íamos todos os dias empina-las, num enorme terreno baldio, num moro, no fundo da casa. Era uma grande alegria para nos todos quando a pandorga levantava vôo e subia mais alto do que o dia antes.

Havia um momento especial e tradicional... o Kopketee era servido todos os dias...às quatro horas da tarde e eu adorava tomar o chá com o açúcar ¨Kandis¨ que faz a -Teemusik a música do chá...com os saborosos docinhos da tia Juli... o Platdeutsch, dialeto da região de Ostfrisenland, era a forma como estes meus tios sempre se comunicavam...e a gente não conseguia entender...

A Oma..... Foske.... a Kleine Oma...

Nós a chamamos com amor e carinho de Kleine Oma, porque ela era de estatura pequena, comparada com a nossa outra Oma que nós chamávamos de Grosse Oma...

Lembro das viagens a Santo Angelo para visitá-la e da sua alegria quando nos recebia. Gostava de fazer gostosas comidas típicas alemãs, também gostosas ¨schmias¨ de frutas. Recordo que sempre havia alguma pessoa morando com ela. Lembro das filhas do tio Heini, as primas Marga, Käthe e Ani quando estudaram em Santo Angelo, também moraram com a Oma.

Oma e Opa tinham um banheiro com uma linda banheira, com água quente, aquecida com lenha. Que luxo!

Lembro de chegar em Santo Angelo de carro, e como as estradas não eram ainda asfaltadas, havia aquela "famosa poeira vermelha". Eu estava totalmente coberta da poeira vermelha, fui logo colocada naquela linda banheira e quando a Oma entrou viu a água vermelha riu muito e disse ao Opa que ele poderia fazer tinta vermelha desta água, como ele queria fazer tinta verde do mate... todos riram muito... foi um momento lindo, divertido e gostoso...

Seguidamente ela nos visitava em Cruz Alta e, mais tarde em Panambi. Gostava de ajudar, de cozinhar e fazer meias de tricot e especialmente cantar.

Ela ficou muito contente quando viu que eu estava aprendendo o alemão, pois durante a guerra tinha sido proibido a língua alemã e eu só aprendi aos 7 anos de idade. A Oma escreveu várias cartas para mim, e deixou uma linda dedicatória no meu Álbum de Recordações, escrita no dia 26 de Fevereiro de 1950, que guardo como uma preciosidade.

Lembro-me nitidamente quando chegamos em Santo Angelo para o enterro do Opa. Havia chegado para nós e também para o Tio Nicklaas, a noticia errada, por telefone no meio da noite, que a Oma havia falecido.

Fomos de Cruz Alta no carro, o famoso Studebaker, do tio Nicklaas, lotado com as duas famílias. Qual não foi nossa surpresa ao chegarmos esbaforidos na casa dos avos, lá estava a Oma sentada no seu cantinho predileto fazendo tricot. Foi um susto para a família inteira, porque todos estavam preparados para ver o Opa vivo, mas era ele que estava no caixão... sendo velado.

Lembro da Oma, como uma pessoa querida que gostava das coisas em ordem, era severa e exigente, era prestativa e sobretudo tinha uma grande fé e amava a Deus.

Muitas vezes ao anoitecer eu a ouvia cantar a canção - Abendfrieden - wie ist doch der Abend so traulich....

O Opa... Heinrich Menno Schüür...

Eu estava de "férias" do jardim de infância, visitando o Opa e Oma em Santo Angelo, quando tinha apenas 5 anos, lembro pouco daquela visita, mas o pouco que lembro ficou profundamente gravado na minha lembrança e no meu coração.

Como era costume, íamos todos os domingos para a Igreja Batista na Escola Dominical e depois ao Culto. Sempre passávamos antes na casa do tio Volkmar para buscar a prima Waldi. Então, contentes e orgulhosas, de mãos dadas com nosso Opa, íamos pelas ruas de Santo Angelo, tagarelando em português e em alemão.

No culto, como sempre, eu estava sentada no lado do meu Opa. Eu pouco entendia do alemão, mas entendia quando o Pastor pedia, como era costume, por voluntários para fazerem orações. Lembro o quando eu adorava ouvir o Opa rezar, e então pedi em português - "Opa reza" e de novo - "Opa reza" - insistindo de novo - até que ele fazia uma oração em voz alta.

Até hoje lembro da paz, conforto e alegria que sentia quando o meu Opa rezava. Seguidamente lembro destes momentos e, em horas difíceis da minha vida, me coloco mentalmente naquele lugar, quando tinha 5 anos, para sentir a forte e gentil mão do Opa... e procuro aquela paz, aquele conforto que sentia ao lado do meu Opa, quando ele rezava...